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    Como os bancos vão transferir seu dinheiro no futuro?


    Por Placido Curvo Netto • 28 de fevereiro de 2019
    tempo de leitura do artigo: 13 minutos

    É inegável que nos últimos anos o mercado de criptoativos evoluiu bastante. Vimos várias notícias recentes referentes a moedas e/ou soluções específicas tratando da transferência internacional de recursos entre instituições bancárias. A meu ver, esse será um dos principais use cases dos criptoativos e tecnologia blockchain.

    Hoje, toda vez que você faz uma transferência e/ou ordem de pagamento entre países você acaba utilizando a rede SWIFT. A rede Swift, Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, foi criada em 1973 por 239 bancos de 15 países. Fonte: wikipedia. Atualmente a rede de mensageria interconecta mais de 11.000 bancos e organizações financeiras em mais de 200 países.

    Todavia, o grande problema da rede SWIFT é que, como ela só é uma grande rede segura de troca de mensagens, ela ainda exige que a troca dos valores em si sejam resolvidas entre as instituições envolvidas. Ou seja, só resolve o problema de comunicação entre as instituições e não a transferência em si.

    Sistema de mensageria interbancária SWIFT. Fonte: www.alianceenterprise.com

    Que fique claro, a rede SWIFT não possui recursos financeiros, e/ou títulos e não administra contas de clientes. A rede SWIFT permite que as instituições consigam transmitir instruções e confirmações no apoio ao processo de efetivação das transações financeiras.

    SWIFT sistema lento e caro!

    Por isso, apesar do SWIFT ter sido um grande avanço à época da sua criação, hoje ele é um sistema lento, com muita inserção manual de informação com instruções de como processar pagamentos e transferências. Dessa forma, essa lentidão impacta diretamente sobre a velocidade nas transferências. Já que cada instituição processa os pagamentos dentro dos seus sistemas próprios e mandam as confirmações de cada etapa pela rede SWIFT.

    Assim, o tempo médio para transferências é de 2-5 dias úteis. Todavia, em muitos casos podem levar até 10 dias úteis para se realizar uma transferência. Isso mesmo até 10 dias úteis!!! Eu acho inaceitável em pleno século XXI, onde você envia mensagens instantâneas por todo o globo se demore tanto tempo para transferir dinheiro.

    Além disso, é um sistema caro. Se estima que os custos anuais envolvidos, segundo a Organziação Mundial do Comércio, é da ordem de USD 1,6 Trilhões.

    Abaixo temos um infográfico de exemplo de como o sistema SWIFT opera, observe que ele só se ocupa de uma pequena parte do processo.

    Processo de transferências internacionais. Fonte coins.ph

    Como resolver essa lentidão? Blockchain!!

    As instituições financeiras muitas vezes justificam a demora na liberação dos recursos transferidos internacionalmente, pela necessidade de verificação da origem dos recursos e garantir o compliance e a transparência nas operações.

    Além disso, a rede SWIFT, só resolve o problema da comunicação, mas não resolve como transferir de fato os recursos.

    Assim, vem a pergunta. Será que existe alguma tecnologia que me permite transferir recursos internacionalmente de maneira, segura, transparente, auditável e principalmente rápida?

    É claro que tem! Use a tecnologia blockchain!!

    Sem dúvida, eu não fui a única pessoa que chegou a essa brilhante conclusão. Hoje, várias empresas e instituições financeiras estão criando e testando as mais diversas soluções de transferências de valores baseadas em tecnologia blockchain.

    Muitas soluções já estão disponíveis e funcionais. As mais famosas sendo, a Ripple (XRP), a Stellar Lumens (XLM) e agora a recém saída do forno JPM Coin.

    Quem é quem hoje nesse mercado?

    Em primeiro lugar, é importante destacar as soluções em grupos, as das redes privadas e centralizadas, como a JPM Coin, redes públicas centralizadas, cujo representante é a Ripple (XRP) e redes públicas e descentralizadas como a Stellar Lumens (XLM).

    Mas, qual as vantagens e/ou desvantagens de cada caso? Apesar de não ser objetivo desse artigo entrar a fundo em cada moeda vou rapidamente listar as principais características de cada uma das 3 soluções apresentadas.

    Ripple (XRP)

    A Ripple é uma empresa, uma plataforma de pagamentos digitais e uma criptomoeda. Apesar de ser uma criptomoeda como o Bitcoin (BTC), o modo como ele funciona é MUITO diferente. Todo o XRP já foi emitido e a grande quantidade disponível é de propriedade da empresa Ripple.

    A solução oferecida pela Ripple, via sua blockchain RippleNet, consegue disponibilizar transferências, pagamentos e operações de câmbios, internacionais, para negócios e instituições financeiras. A rede consegue processar 1500 transações por segundo e confirmar transações em 4 segundos na média. Bem melhor que 10 dias úteis…

    Atualmente, a Ripple (XRP) é a terceira maior criptomoeda segundo a Coinmarketcap. O seu valor de mercado é de quase USD 13 Bilhões, atrás apenas do Ethereum (ETH) com USD 14,5 Bilhões e o Bitcoin (BTC) com USD 68 Bilhões. O que mostra a sua relevância no mercado das criptomoedas.

    Como a maior parte dos tokens da RippleNet o XRP é de propriedade da empresa a centralização da rede é dada. O que deixa espaço para que a Ripple dite a liquidez e disponibilização da moeda. Isso pode afetar diretamente o preço do token. Algo que não é visto com bons olhos. Assim, por ser uma rede centralizada, e os serviços que a empresa oferece é para o sistema financeiro tradicional, ela não é considerada uma tecnologia tão disruptiva quanto o Bitcoin (BTC).

    Mas será que realmente precisamos de soluções como a Ripple (XRP)?

    O Bitcoin (BTC) com sua rede totalmente descentralizada e emissão dentro de critérios claros e de uma maneira deflacionária no longo prazo, ele oferece uma nova opção ao sistema financeiro atual. Inclusive para transferências internacionais.

    O Bitcoin (BTC) tem o foco na liberdade do indivíduo de lidar com seus ativos financeiros diretamente, sem depender de terceiros. Com o poder claro de “unbank the banked”. Em outras palavras, dispensar as pessoas de usarem serviços bancários tradicionais de maneira definitiva.

    Isso sendo exatamente um dos maiores medos dos bancos o que faz com que ele veem com bons olhos soluções como a Ripple (XRP). Já que traz as soluções blockchain para dentro do ecossistema financeiro tradicional, sem destruí-lo.

    Por tudo isso dito acima, dentro da comunidade cripto mais libertária, o projeto Ripple (XRP) não é bem visto.

    Quem usa a Ripple (XRP) ?

    Apesar de não ser bem visto pela comunidade cripto mais raiz, é evidente que a Ripple atraiu muita atenção. Afinal vivemos no mundo real. Instituições tradicionais já utilizam suas soluções entre eles o Banco Itaú e Santander.

    Além disso, acredito que instituições financeiras, pequenas e médias, que não tem os recursos para desenvolver suas próprias soluções, poderão adotar a Ripple (XRP). Do mesmo modo, grandes instituições, que por questões de estratégia, não queiram lançar a sua própria solução, mas querem participar de uma rede centralizada, optem também pela Ripple (XRP).

    Abaixo encontramos alguns dos clientes das soluções da RippleNet.

    Alguns clientes da RippleNet
    Alguns clientes da RippleNet Fonte: https://ripple.com/

    Stellar Lumens (XLM)

    O projeto do Stellar Lumens em poucas palavras é a versão pública e descentralizada do Ripple (XRP). Citando o seu site:

    Stellar é uma plataforma financeira que é projetada para ser aberta e acessível a todos.

    A missão da Fundação de Desenvolvimento Stellar (organização sem fins lucrativos que controla o projeto), é promover acesso ao sistema financeiro global, alfabetização e inclusão. A fundação cumpre a sua missão expandindo o acesso mundial a serviços financeiros de baixo custo por meio do desenvolvimento e manutenção de tecnologias e parcerias.

    A visão da fundação é o de um sistema financeiro aberto e acessível onde pessoas de todos os poderes aquisitivos podem acessar serviços financeiros de baixo custo, seguros e de fácil uso.

    A fundação também almeja empoderar desenvolvedores com tecnologia útil para criar produtos e serviços financeiros para suas comunidades.

    Ela, como a Ripple (XRP) oferece também serviços financeiros de pagamentos e transferências internacionais. Utilizando também instituições consolidadas do mercado tradicional ou novas que queiram operar como uma terceira parte de confiança.

    Como a Ripple (XRP) os Stellar Lumens (XLM) foram pré-minerados. A grande diferença é que o Projeto Stellar Lumens tem um programa de distribuição gratuita de tokens. Essa distribuição está alinhada com a missão apresentada acima. Ou seja, instituições que a fundação reconhecem como relevantes para atingir os objetivos da missão do projeto receberão um investimento em XLM.

    Dos 19,2 Bilhões de XLM disponíveis hoje, 8,65 Bilhões foram doadas para instituições que de alguma maneira ajudam pessoas desprovidas de serviços financeiros básicos a poder operar os seus recursos. A inflação da rede XLM será de 1% ao ano.

    Hoje a capitalização do Stellar Lumens é de USD 1,64 Bilhões e ocupa a oitava posição do ranking das criptomoedas. Nada mal!

    Parecido com o Bitcoin, mas com suas diferenças.

    Do mesmo modo que o Bitcoin (BTC), o projeto Stellar Lumens (XLM) procura fornecer uma opção ao sistema financeiro tradicional. Todavia, ela também procura acomodar instituições tradicionais, pois dentro da lógica da rede XLM, existem as figuras de âncoras. Essas âncoras, são terceiras partes de confiança para poder certificar depósitos dentro da rede. Por exemplo, uma instituição que é uma âncora da rede XLM pode registrar na blockchain que o José da Silva é proprietário de R$ 10.000,00. Garantindo assim que o José possa utilizar esse valor em qualquer outra instituição ligada a essa rede.

    Além disso, a rede também pode ser usada pelas próprias instituições âncoras para atender às suas necessidades internas de transacionar dólares, euros, reais, etc. Diminuindo os seus custos e velocidade de processamento e confirmação de transações. As transações dentro da rede XLM são confirmadas em 2 a 5 segundos.

    Parceria importante com a IBM

    Reconhecendo a relevância das soluções da Stellar Lumens (XLM), a IBM fechou parceria no sentindo de dar maior alcance à rede descentralizada.

    Fruto dessa parceria as duas instituições lançaram um sistema de pagamentos baseado em blockchain chamado de IBM Blockchain World Wire. A solução garante acomodar os processos atuais de compensações bancárias internacionais dentro da solução blockchain própria baseada na tecnologia Stellar Lumens (XLM).

    Como funciona o IBM BlockChain World Wire (em inglês)

    Natural que o peso da IBM faz com que as soluções da Stellar Lumens (XLM) ganhem cada vez mais relevância. Com isso, a colocam como uma forte competição à rede Ripple (XRP). E, é um projeto bem visto pela comunidade cripto tradicional já que tem a missão de trazer serviços financeiros para todos que precisam a um baixo custo sem obrigatoriamente ter que depender de uma instituição.

    JPM Coin

    Dos 3 exemplos discutidos o JPM Coin, a meu ver, é o mais fácil de explicar. O maior banco americano JP Morgan Chase, com uma receita anual de USD 120 Bilhões e um volume de mais de USD 6 trilhões anuais em transações, decidiu se aventurar no mundo critpo. Sem dúvida um peso pesado entrou em cena.

    Esse case é particularmente interessante, porque o presidente do banco, Jamie Dimon, foi um ferrenho crítico do Bitcoin (BTC) e das criptomoedas em geral. Todavia, até mesmo ele teve que acabar se rendendo. Já que o seu banco foi a primeira instituição bancária tradicional a lançar um produto baseado em um criptoativo.

    O JPM Coin nada mais é que um token atrelado diretamente ao dólar. A solução da JPM Coin foi criada na blockchain própria do banco, o Quorum, baseado na tecnologia Ethereum (ETH). Ele será um intermediário do dólar americano para permitir transações rápidas entre clientes institucionais do banco. O processo funciona assim. Um cliente que deseja transferir um grande montante de dólares, compra o equivalente em JPM Coin. Utilizando a paridade 1 Dólar – 1 JPM Coin. Uma vez de posse dos tokens o cliente transfere via a blockchain do banco para o recipiente da transferência/pagamento. Uma vez confirmada a transferência, o recipiente poderá trocar os tokens novamente por dólares. As transações são confirmadas na média em 10 minutos.

    Com a JPM Coin o JP Morgan espera cortar custos no processo de transferências e obviamente ganhar celeridade nas transferências/pagamentos. Por enquanto só grandes clientes institucionais poderão comprar a JPM Coin. Não adianta correr na Binance e tentar comprar o token. Apesar da JPM Coin estar atrelada somente ao dólar americano, o banco já informou que a tecnologia poderá ser facilmente adaptada para qualquer moeda.

    Para maiores informações sobre a JPM Coin clique aqui.

    Mas e afinal, quem leva a melhor?

    Difícil dizer quem vai levar a melhor no mercado de transferências / pagamentos internacionais. Uma coisa é certa o maior risco dessas novas tecnologias é certamente para a rede SWIFT. Se ela não se modernizar fatalmente será substituída por elas.

    Cada solução tem seus atrativos tanto do ponto de vista de negócio e interesse das instituições. Para um objetivo mais humanitário e libertário sem dúvida a solução da Stellar Lumens é mais atrativo e com uma alma mais raiz do mundo cripto.

    Como uma solução multi institucional, como uma evolução natural da rede SWIFT, enxergo o Ripple como um candidato forte. Pois, com sua solução centralizada e controlada, acho que as instituições financeiras tradicionais se sentirão mais confortáveis sabendo que um ponto central controla os tokens. Algo que a comunidade cripto mais tradicional é contra.

    O grande problema da Ripple é saber se realmente os bancos e demais instituições financeiras embarcarão na RippleNet ou criarão cada um sua própria moeda. Nesse sentido, entra a JPM Coin. O maior banco americano criou a sua criptomoeda. Acredito que esse movimento deverá ser copiado por outras instituições financeiras de peso. O que gera concorrência direta para o Ripple. Com várias moedas disponíveis no futuro elas irão competir pela hegemonia desse mercado.

    As soluções descritas nesse artigo não são exaustivas do que existe disponível no mercado hoje. Reforço que só procurei descrever superficialmente as principais. Com uma rápida pesquisa nas ferramentas de busca poderá encontrar diversas outras empresas que apresentam suas próprias soluções.

    Qual vencerá?

    Difícl prever. Mas, uma previsão segura de se fazer é que as transações bancárias internacionais, e até mesmo as transações entre bancos de um mesmo país, muito provavelmente serão realizadas utilizando criptomoedas. O que mostra a força da tecnologia. Os maiores críticos da nova revolução digital, já perceberam que não tem como fugir da tecnologia.

    Essa constatação chancela de uma maneira clara que as criptomoedas vieram para ficar e isso impactará nos preços das moedas de uma forma geral.

    Isso dito, no futuro, toda vez que você fizer um TED no seu banco ou emitir divisas para um parente fora do Brasil você provavelmente estará usando criptomoedas.

    Isso se você ainda tiver usando serviços bancários tradicionais, claro.

    E você? Como enxerga que as instituições financeiras irão processar transferências e pagamentos internacionais no futuro? Não deixei de comentar!

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